Segunda-feira, dia de samba, dia de vela

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Em Santo Amaro, o Samba da Vela faz seu ritual

Um culto, pessoas, uma vela. Sambas são declamados como orações, compositores de diversas gerações são aplaudidos de pé ao apresentarem na roda suas canções, e o respeito se dá com silêncio e atenção a cada verso, a cada nota do cavaco, do pandeiro, do repique, do tamborim... A roda inicia quando a chama da vela se acende, e se encerra com a última fagulha de luz. Pegue seu caderno de rezas, sente na roda, e respire samba até o fogo apagar. O Lugares no Mundo apresenta a Comunidade Samba da Vela. 

Um pedaço de Santo Amaro, em São Paulo, que nem de longe é o bairro mais tradicional quando o assunto é música, se mostrou um verdadeiro centro de cultura e em um dia bastante improvável, a segunda-feira. É no começo da semana que a comunidade de moradores do bairro se reúne para dar vida ao estilo musical que caracterizou o Brasil, que personificou a figura do malandro, nascido no escasso tempo livre dos escravos que queriam expressar sua cultura, seus sentimentos e suas ideias.
 
Nós do Lugares no Mundo chegamos no horário combinado, pois o samba é pontual e a princípio sabíamos que erámos intrusos, já que praticamente todos os presentes se conheciam, eram amigos de roda. O silêncio se sobrepunha aos cochichos e o clima era o mesmo de um culto que iria se iniciar, talvez até um pouco tenso. Mas foi só os músicos começarem a chegar, que não mais que de repente, tudo mudou. O desânimo típico do começo da semana não é permitido quando se inicia o samba e ao cantar as letras todos se sentem partem de uma coisa só. Não erámos mais intrusos e a letra de Fernando Ramos se mostrou factual: “Esse lugar tem magia, enche a alma de alegria, um ventre que gera samba, a chama ilumina sempre, a mente do compositor”.
 
Com quase 11 anos de história, o Samba da Vela surgiu de forma descompromissada, e nem de longe seus fundadores imaginavam as proporções que o projeto iria ter. Na verdade no começo de tudo, nem projeto era, e sim amigos que gostavam de tocar e criar pelo simples prazer de praticar a música. Apenas honrar sua necessidade de cantar. Mas o quarteto formado por Paqüera (leia “Pacuera”), Magnu Sousá, Chapinha e Maurílio Oliveira, acabou chamando a atenção das pessoas e seu público começou a nascer. Eles precisaram encontrar um lugar para reunir os músicos e os apreciadores. Conseguiram a Casa de Cultura de Santo Amaro e a segunda-feira foi escolhida por ser o dia em que tinham se reunido quando tiveram a ideia, e que então permaneceu. Todas músicas são exclusivas dos compositores da Comunidade, e qualquer um que tenha coragem de mostrar seu trabalho pode ser um deles. 
 
É opcional pagar a módica quantia de cinco reais, um custo insignificante para as sensações que terá. É mais do que justa a função de mecenato. Um lugar bem simples e não tão espaçoso com uma mesa no centro coberta por uma toalha de renda, do tipo que você encontra na casa da sua vó, com a fatídica vela em cima e cadeiras ao redor. Basta escolher o seu lugar e aguardar. Quer beber? Beba água, apenas! O Samba da Vela tem seu foco bem definido como atividade cultural e não recreativa. Quer conversar? Se retire! Não são permitidas conversas paralelas enquanto a boca dos compositores recita versos de samba, todos gerados ali, naquela roda. 
 
O público que frequenta é quase todo limitado ao moradores da região, alguns fãs de samba e os intrusos como nós do Lugares no Mundo, ávidos por novas experiências culturais. Engravatados recém chegados do trabalho, senhores, jovens amantes do samba, famílias completas com filhos pequenos, moradores da região... Na semana anterior soubemos que até o baixista do Red Hot Chilli Peppers, o Flea, aproveitou o tempo livre da viagem que fez para tocar em São Paulo e foi conhecer o lugar que transpira cultura original mesmo
 
Mais rápido do que gostaríamos a chama da vela se apaga e eis que o samba chega ao fim. Afinal terça-feira todos estarão de volta a labuta. Uma mesa é colocada na lateral com um delicioso caldo. O ritual por fim está completo. As pessoas em fila esperam calmamente pela delícia gastronômica que é perfeita em sua simplicidade.  Coloque pouca pimenta, pois ela é bem forte até para apreciadores da ardência que faz escorrer lágrimas (como nós) e saboreie a sopa do samba. Enfim é hora de ir embora de alma renovada.
 
Veja a entrevista completa com o Paquera, e sinta um pouco desse samba.

 

 

Informações:  O Samba da Vela acontece toda 2º feira,  partir das 20h30, na Casa de Cultura em Santo Amaro, localizada na Praça Francisco Ferreira Lopes, 434. Altura do nº 820 da Av. João Dias. São Paulo.

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CRÉDITO DAS FOTOS: BÁRBARA DANTINE, JULIANA CALAF E MARIA CONFORT

Créditos: Segunda-feira, dia de samba, dia de vela

Última atualização em 13/10/2012 as 20h44

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