Segredos da Chapada

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Chapada Diamantina sem pressa

BAHIA Chapada Diamantina

Já nos limites entre Minas Gerais e Bahia pode-se sentir a força do que está por vir. A Serra do Espinhaço, da qual a Chapada Diamantina faz parte, tem mais de 1 mil km de extensão e é o equivalente brasileiro às Cordilheiras dos Andes. Suas impressionantes formações rochosas deterioradas pelo tempo, dorsos gigantescos cravados na terra. Saímos de São Paulo de madrugada de carro ainda incertos da viagem que estava por vir.

A viagem por São Paulo e sul de Minas Gerais é pela Fernão Dias (BR 381). Almoçamos em Belo Horizonte, de onde pegamos a BR 262 em direção ao Estado da Bahia. O trecho entre Ipatinga e Governador Valadares é perigoso. São muitos caminhões, asfalto mal cuidado e falta de acostamento. A apreensão só diminui devido às barreiras da construção do gasoduto que liga Rio de Janeiro à Bahia [inaugurado], e com as mensagens evangélicas voltadas aos caminhoneiros cavadas nas pedras.

Passamos a noite em Teofilo Otoni (MG) no Bel Park Hotel. A cidade é pacata e sem muitas atrações aparentes. Mas para quem precisava apenas pernoitar, valeu. Comemos em uma padaria tradicional com porções generosas próximo à praça principal. No outro dia, optamos por um sono mais longo e um café da manhã reforçado para que aguentássemos até Vitória da Conquista (BA).

Deixamos Vitória da Conquista decididos a chegar naquele mesmo dia, mas a péssima estrada em direção à Brumado tirava aos poucos nossas esperanças. É quente. Na beira da estrada crianças vendem pacotes de mangaba. As plantações de palma, vistas das pistas, nos davam pistas de que estávamos mesmo mais próximos do sertão. Já estava escuro quando chegamos a Ituaçu, uma das entradas mais belas da Chapada. A iluminação do cemitério bizantino em Andaraí é caprichosamente estranha. A densa vegetação faz o ar mais úmido.

Ao entrarmos na BR 242, uma surpresa. A estrada é impecável, embora ainda falha de localização em curvas perigosas, o asfalto é novo, sem buracos. Ao invés de seguirmos viagem até Campos de São João, nossa base pelos próximos dias, dormimos em Lençóis. A capital da Chapada é uma cidade colonial que enriqueceu nos tempos da mineração de diamantes e outras pedras preciosas. A atividade oficial só foi extinta nos anos 1990 e a boa estrutura urbana migrou para o uso do ecoturismo. As ruas de pedra fazem lembrar outras cidades coloniais como Ouro Preto ou Paraty. A cidade sempre bem iluminada é o destino de turistas de toda parte (principalmente austríacos).

Jantamos no El Ramiro Bar Music, do casal argentino Max e Laura. Nos dias seguintes, visitei alguns poucos restaurantes. O A Doce Vida não convenceu com o ravioli de salmão com molho picante de manga. Já no Cozinha Aberta, representante do slowfood na cidade, Guloch de Chocolate. O restaurante é de Deborah Prado, irmão do artista plástico Stephan Doitchsnoff (daí o original de obras do irmão na parede). Como sobremesa, o sorvete de cardamomo servido com brownie de chocolate. Mas imbatíveis são temperos locais. Há vários restaurantes barato. Em um deles, no Beco's Bar, bisteca de porco com arroz, salada, feijão e palma picada cozida.

Depois do jantar, com a ajudinha de amigos, conseguimos vagas na simpática Pousada do Violeiro. De manhã cedo, partimos finalmente para Campos de São João. Na cidade, uma antiga cidade-dormitório para garimpeiros, encontramos o núcleo de amigos com quem partiríamos para a maior parte dos passeios da Chapada. Dos fundos da casa, com quartos e áreas verdes incrustadas em um longo terreno ao lado de pedras e um pomar edênico, saíram ainda mais um par de viajantes europeus que nos acompanhariam nos dias seguintes. Mas a sensação de ser um estrangeiro em uma terra de natureza tão esplendorosa não é reservada apenas a eles.

Apesar de termos poucos dias para ficar na Chapada (apenas 10, além dos quatro de viagem de ida e volta), nossa viagem foi marcada por um ritmo cadenciado. Não estávamos hospedados em um hotel, mas na casa de uma amiga. Os passeios, organizados nem sempre com antecedência, foram marcados quase sempre por prazerosas refeições, imersão na culinária local, aulas sobre botânica e uma experiência de limpeza espiritual entre os paredões de quartzo e granito.

Nosso primeiro passeio foi à Cachoeira do Riachinho (próximo a Capão) na verdade um conjunto de 10 quedas rio abaixo. É preciso um pouco de coragem para descer as quedas, mas a recompensa é certa. Ali, como em muitos outros lugares nos 8 municípios que formam a Chapada, é possível experimentar o pastel de palmito de jaca. Vá com calma. E, mais uma vez, evite muito suco de mangaba. Depois de passarmos a tarde em piscinas nas águas ferrosas do rio, partimos para o Vale do Capão. Esse entreposto parece um corte baiano de A Ilha. A sensação: habitamos um outro paralelo onde trocamos nossas experiências e medalhas, cicatrizes e hematomas obtidos em nossas aventuras pela Chapada. Ali sabemos que um ou outro amigo já partiu de volta para a Europa e nos alegramos ao saber que um outro conseguiu seu visto renovado e está retornando de Salvador com iguarias (são seis horas de ônibus).

No outro dia, partimos para a Pratinha (Iraquara), mas nos perdemos nas trilhas e chegamos já tarde para conferirmos também a Gruta Azul (onde voltaria alguns dias depois). De pés de pato, snorkels e lanternas, entramos nas águas transparentes da gruta de formação calcária, com o cuidado de não tocar o fundo do lago. Formado por micro conchas, a prova de que o sertão já foi mar. Se agitadas e misturadas à água, prejudicam a visibilidade. A falta de luz, no entanto, desperta outros sentidos e somos convidados a apagarmos nossas lanternas e flutuarmos parados e em silêncio sobre o poço de 15 m de profundidade. A saída contrastante é marcada por um passeio a lagoa, com mais de 30 espécies de peixes, como lambaris, piaus e traíras. A água é clara, transparente e a presença de calcário e magnésio a fazem luminosa e uma das melhores para exploração subaquática do mundo.

Mais uma noite, retornamos ao Vale do Capão, mas nos apressamos para voltarmos a Campos de São João para descansar para o passeio do dia seguinte: a Cachoeira da Fumaça. Logo cedo, munidos de água, castanhas, frutas secas e câmeras fotográficas, partimos de carro novamente em direção à Iraquara, onde fica a entrada para trilha para a Cachoeira da Fumaça por cima. Além dessa trilha, de cerca de duas horas, há a possibilidade de ver a Cachoeira da Fumaça por baixo, por uma trilha de um dia. Logo no início da trilha, somos convidados a assinar um termo de compromisso pela Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão. Para este passeio não é necessário um guia e seguimos em frente. A primeira meia hora de trilha é a mais íngreme, e por isso, a mais cansativa.

Em pouco mais de uma hora de caminhada constante, chegamos ao topo da cachoeira. A vista. De cima é possível acompanhar a queda da água, que ao evaporar-se antes do encontro com o solo. Deitado sobre a laje é possível ver palmeiras, pássaros, e onde o fio de água vira fumaça, começa a vertigem. Fiquei horas observando a vista e só retornamos por causa da chuva, que prometia, mas virou chuvisco - cascata arco-íris no plateau.

Balanceamos a experiência de outdoor do dia anterior com uma incursão à Gruta Torrinhas. De capacetes seguimos nossos dois guias por 2 km adentro de uma caverna. As atrações, estalagtites e estalagmites e formações rochosas únicas no mundo como a flor de Aragonita. Antes de entrarmos, as luzes do lampião se apagam e o minuto de meditação só é interrompido pelo bater de asas dos habitantes genuínos dessas profundezas: morcegos. O Salão Branco é uma vasta sala de formações onde é possível ver exemplos de bolhas de calcita, flores de aragonita e agulhas de gipsita.

Ainda dá tempo de observarmos as pinturas rupestres na antiga entrada da gruta para, em seguida, partirmos para um final de tarde na Gruta Azul no Pratinha, que não havíamos conhecido antes. A tentativa valeu a pena, além do espetáculo tímido da entrada do feixe de luz nas águas da gruta – realmente - azul, pudemos passar o resto do dia relaxando nas águas do rio luminescente.

Festas Tradicionais

Mística, a Chapada Diamantina é casa de muitas crenças. O sincretismo é a prática que marca a religiosidade dos locais. A festa de Senhor dos Passos é a principal de Lençóis e acontece desde meados do século XIX. Dura quase um mês, entre 23 de janeiro e 3 de fevereiro.

Zang Tangue é o santo protetor dos mineiros segundo a tradição do Candomblé, ocorrelato na Igreja Católica virou Senhor dos Passos. A Igreja em sua homenagem foi erguida no começos dos anos 1800 para que os mineiros pudessem venerá-lo na tradição cristã.

Enquanto as bahianas em seus trajes típicos limpam e varrem a Igreja, o Pai de Santo (representante do Jarê, prática afro-religiosa originária da Chapada), espalha a água vinda de uma mangueira.  Ao mesmo tempo, tambores ala Olodum da banda Percohits são ouvidos no largo na frente da Igreja ao lado de apresentação de grupo de capoeira.

Quando os batuques param, a Orquestra Filarmônica de Lençóis (fundada em 1903), inicia a interpretação de temas tradicionais e populares. Ao mesmo tempo, nos fundos da Igreja, representantes do reizado dançam. Sua cantoria mastigada ainda celebra o nascimento de Jesus Cristo. Em transe. Assim como todo mundo aqui na Chapada Diamantina.

A Doce Vida
Rua Miguel Calmon, 46, Lençóis, Bahia
Tel.: (75) 9931 4466
http://www.a-doce-vida.com/

Cozinha Aberta
Rua da Baderna, 11, Lençóis, Bahia
Tel.: (75) 3334-1066
http://www.cozinhaaberta.com.br/

Beco's Bar
Rua do Rosário, 172, Rua da Igreja, Lençóis, Bahia
Tel.: (75) 3334-1652

Pousada do Violeiro
Rua Professor Assis, 70, Lençóis, Bahia
Tel.: (75) 3334-1259
http://www.pousadavioleiro.com.br/

Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão
Tel.: (75) 3344-1087

Última atualização em 13/10/2012 as 20h44

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