Não conta lá em casa

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André Fran: O Iraque é um caos

TV André Fran

“Não estamos nessa para morrer.” A frase é de André Fran, um dos quatro integrantes do reality show Não Conta Lá em Casa, do Multishow. Ele conversou com a Lugares no Mundo sobre essas aventuras, os carimbos no passaporte e as viagens que vem por aí na segunda temporada. Ao contrário de outros programas do tipo do mesmo canal, que se especializou em reality shows de destinos com uma abordagem leve, Não Conta Lá em Casa consegue unir aventura com política, geografia e história em uma mistura bem equilibrada em destinos não convencionais. A ideia para a série surgiu depois de realizarem o premiado documentário Indo.doc, sobre estes mesmos quatro rapazes cariocas em busca das reminiscências das ondas gigantes do Tsunami na Indonésia. Em ano de Copa do Mundo na África do Sul e depois de visitarem Coreia do Norte, Mianmar, Iraque e Irã, destinos da primeira temporada, André Fran, Leandre Campos, Felipe UFO e Bruno Pesca preparam-se agora para desbravar o continente africano. Mas em vez de um safári tradicional ou um passeio pelos bem abastados bairros de Johanesburgo, o destino é Serra Leoa, na costa ocidental, um país que foi assolado por anos de guerra civil e o sétimo em mortalidade infantil do planeta. Além de Serra Leoa, ainda estão no itinerário Etiópia, Djibouti, Somália, Paquistão, Afeganistão, Tuvalu e Kiribaty.
 
Lugares no Mundo - Você já havia tido experiências nesse tipo de destino?  
André Fran - O Felipe Ufo tem uma loja de artigos femininos importados, então ele viaja muito para a Ásia. Já foi mais de 20 vezes. O Bruno Pesca viaja desde pequeno porque a mãe era comissária de bordo. Eu é que sou o viajante de primeira viagem. Até então eu só tinha feito viagens pelos Estados Unidos, Europa e América do Sul. Nunca tinha feito uma viagem para Ásia ou Oriente Médio. Isso foi interessante para poder formar o nosso grupo, porque não é todo mundo que tem a oportunidade de fazer essas viagens e é interessante ter alguém com esse ponto de vista.
 
Em um de seus textos no blog, você diz que essa proposta de países de difícil acesso seria uma maneira marqueteira de conseguir vender o programa. Mas o que difere esse tipo de viagem que você mostra no programa de uma viagem comum?
Eu acho que estamos indo para esses lugares não por causa do conflito em si ou pelas ditaduras, mas porque a forma que eles são retratados no ocidente raramente corresponde à realidade. A gente sempre foi muito estudioso e interessado em política internacional. Eu porque sou jornalista e o Bruno Pesca e o Felipe são economistas. O Leandre porque trabalha com cinema, então, sempre tivemos muito interesse nessas questões. Agora, viajando com o programa, a gente tenta se eximir um pouco desses preconceitos e passa a abordá-los de uma forma totalmente nova. A gente acaba vendo que eles são muito mal representados, não só por interesse - não vou nem entrar nas teorias da conspiração, porque eu não acredito tanto assim nelas, mas é obvio que existe algum interesse por trás disso - mas também muita ignorância e falta de vontade de explorar mais a cultura desses lugares. Nossa cultura é muito mais próxima de ir a Nova York, à Disney do que explorar as características de uma nação muito mais distante de nossa realidade. A gente acredita muito no que lê e ouve por aqui, então a vontade de ir lá e passar nossa visão era muito grande e é uma das coisas mais gratificantes de fazer esse programa.
 
Você é fã de relatos de viagens?
Eu sou viciado em livros em geral. De viagem especificamente, não. Tenho vários, sou fã do Jon Krakauer, uma viagem mais ligada à parte de montanhismo. Nunca busquei muito essa coisa da literatura de viagem não, mas já li uns muito interessantes.
 
Seu blog é chamado Fran on the Road em uma óbvia referência a On The Road.
Minha monografia na formatura foi sobre a geração Beatnik. Mas no blog eu queria usar para disparar nossas aventuras de viagem na web, fotos do nosso programa e eu que sou jornalista fiquei com essa coisa de internet. E eu achei apropriado até porque não é um blog sobre mim. É sobre nós quatro viajando.
 
Qual das viagens até agora foi mais significativa para você, pelo ineditismo ou por alguma experiência pessoal?
Acho que quando a gente foi para o Irã, a gente já sabia da questão da mulher, que é uma questão delicada. E no primeiro dia a gente fez amizade com umas iranianas e apenas o fato de nós conversarmos com elas, andarmos nas ruas com elas ou estar sentado na mesma mesa num restaurante, coisas que são consideradas triviais na nossa sociedade, nesse contexto, são uma coisa considerada absurda. É uma experiência que a gente deu um puta valor. Acho que foi bem interessante. Outra mais pelo valor histórico do que pelo interesse pessoal, foi no Iraque onde a gente conseguiu entrar dentro daquele cenário de uma das cenas mais importantes da história recente.
 
E qual o cuidado que vocês tomaram para não influenciar no meio em que vocês estavam visitando. Em Mianmar você citou em seu blog que o simples fato de contar uma piada é considerado um delito. E por outro lado vocês estão em um dos maiores produtores de ópio do mundo. O que você pode e não pode fazer em uma viagem do “Não Conta Lá em Casa”?  
A gente tenta ter o mínimo de interferência possível. A gente está em uma cultura muito diferente do que a gente está acostumado, então querer fazer igual ao local pode parecer algo meio arrogante. A gente trabalha muito durante essas viagens, acorda muito cedo para produzir e quando volta à noite a gente está produzindo os contatos para o dia seguinte. Então, raramente eu pude vivenciar o que uma viagem normal proporcionaria ou ter uns momentos mais relax para aproveitar alguns aspectos da viagem. Por exemplo, haxixe, por mais que não seja meu barato pessoal, você sabe que rola em alguns lugares onde veem essa droga de uma outra forma, mas que a gente acaba nem tendo tempo e ia acabar enrolando nossa produção e as outras coisas que a gente gosta de fazer.
 
Vocês estão agora planejando a viagem para Serra Leoa. Como está sendo esse planejamento?
A gente está sempre junto, troca e-mails, troca informação sobre esses lugares e, às vezes, questionando quais são os lugares interessantes, a gente compra o guia de antemão para saber o que tem, compra livros sobre geografia.
 
O que levou vocês a escolherem Serra Leoa como destino?
A gente pensou em abordar um país no continente africano, que a gente não tinha abordado na primeira temporada, e é um continente ríquissimo, seja em recursos naturais, recursos humanos e há conflitos armados em vários países. Serra Leoa é um dos mais emblemáticos por causa do filme Diamantes de Sangue e a gente achou que poderia ser nossa primeira ida à África. A gente chegou a pensar no Sudão também, ou Somália, mas acabou avaliando melhor. E também porque com a Copa do Mundo na África do Sul, a atenção vai estar totalmente na África.
 
Quais são os maiores medos ao fazer uma viagem como essa?
Antes a gente tem sempre a preocupação de entender a cultura das pessoas, algumas coisas podem significar coisas completamente diferentes em lugares diferentes. A gente é também muito low profile, a gente não é muito garotão, abusado ou espalhafatoso, então, a gente é bem respeitoso e admirador das pessoas e a gente consegue tirar isso com certa facilidade. Em Serra Leoa, a preocupação é mais com a questão de segurança. A gente nunca tem como saber a situação no país onde a gente está indo, então é mais por aí. A gente vê os riscos que a gente tem a tomar, porque muitas vezes o risco pode extrapolar as imagens que a gente vai conseguir, ou até arriscar mesmo a vida. Ninguém está nessa para morrer.
 
Qual o tamanho da produção?
Nós quatro fazemos tudo.

E quais são os itens que não podem faltar na mala de viagem?
A camiseta da seleção sempre ajuda. Calça comprida e camisa social, em alguns lugares se você sair de camiseta é como sair de cueca. Do mais, são as coisas normais.
 
Você recomenda de fato esses países como destinos de viagem?
O Iraque não, mas o Irã eu recomendo muito. Acho que poucas pessoas viram o que é, na real, o Irã, tanto em termos de segurança quanto em termos de beleza natural. Historicamente é fantástico e o povo é o mais hospitaleiro que eu já vi na minha vida. É um país sensacional de se visitar. Já no Iraque, onde as tropas americanas estão se retirando, o país está completamente entregue ao caos, destruído. O clima muito tenso, diversos atentados acontecendo todos os dias.
 
Mesmo que vocês contem com a produção de vocês, chegaram a passar por algum momento de maior tensão ou constrangimento atrás das câmeras?
No Iraque, não deu para mostrar tudo, porque todo o momento era clima tenso, medo de bomba explodir, pessoas falando de tragédias acontecendo ali perto, como a presença do exercito americano e iraquiano, não podíamos tirar as câmeras nessas horas, tanto que era de arma e pessoas armadas interagindo conosco. No Irá, a gente tentou falar sobre os protestos contra a reeleição do Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã), mas ninguém abriu a boca para falar.
 
Em que bairro você mora no Rio?
No Leblon.
 
Não fosse esse o objetivo do programa, você consideraria o tipo de turismo que se faz nas favelas do Rio de Janeiro, ou sul do Pará, ou ainda o norte do Tocantins, como destinos prováveis para o “Não Conta Lá em Casa”?
Muita gente fala da gente fazer programas nas favelas do Rio de Janeiro, mas o José Junior, do Affroreggae já faz isso e manda muito bem. Então acho que por mais que o nosso enfoque fosse diferente, ele já mostra segundo sua proposta no tom certo.
 
E outros destinos no Brasil como sul do Pará e norte do Tocantins (região violenta conhecida como Bico do Papagaio)?
Não vai ser o enfoque específico, mas a gente vai abordar as Ilhas Nação, que são países ilha que vão desaparecer do planeta por conta do aquecimento global e subida das marés. A gente vai visitar esses lugares para saber como é que está e se já estão em situação calamitosa. E a gente já ficou sabendo que aqui no Brasil, a subida das marés já está causando o aparecimento de alguns refugiados climáticos também e a gente está pesquisando para saber quais são esses lugares. Um deles é a Ilha do Cardoso, no litoral do Paraná.

Última atualização em 13/10/2012 as 20h44

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