Harlem Rucker Park

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Tarde baller no berço

BASQUETE, ARTE

 New York, a capital do mundo, tudo acontece e não acontece lá, o que a turistada não se liga, e só quem sabe demais acaba se jogando, é o seu lado esportivo histórico, com seu baseball representado pelos Yankees, do mais celebrado batedor de todos os tempos, Babe Ruth, ao Brooklin Dodgers, que já pularam para outra costa e estão em LA. Ali está também o berço do basketball arte, o Harlem. 

Localizado ao norte da ilha de Manhattan, o bairro começa logo aonde termina o Central Park. A grande maioria de seus moradores são negros e percebe-se a mudança cultural e comportamental já nos produtos comercializados pelo bairro, bebidas, comidas, roupas. Uma própria cultura e atitude. Seu nome é atribuído a um dono de bares da região e primeiro patrão da diva norte-americana Billie Holliday.

No limite do bairro, aproximadamente na 155th, está a meca do Basquete de rua, o Rucker Park, onde surgiram estrelas como Lew Alcinder, consagrado como Kareen Abdul-Jabar, monstros como Earl "the pearl" Monroe, Earl "the goat" Manigault, Vince Carter, Julius "Dr. J" Erving, Rafer "skip to my lou" Alston, Lamar Odom, Ron Artest, Stephon Marbury, Jamal Mashburn, Kevin Love, Allen Iverson entre outros, uma constelação de estrelas que começaram nesse solo sagrado.

Para os fissurados do racha, como eu, este é o olimpo onde os deuses brincam com a redonda na mão. Jordan pisou e pulou nessa quadra, e até aqueles que não manjam muito se sentem contagiados pela atmosfera mágica local.

Era uma terça-feira, um sol castigante em New York em pleno setembro e eu não tinha um tênis de basquete, como assim? Pisar em solo norte-americano pra qualquer amante de basquete é como se tivéssemos uma oportunidade única de comprar todos os tênis possíveis e imaginários a preço de banana, e isso não precisa nem de outlet pra acontecer, um Air Jordan decente custa em média U$100 sendo que se esse tênis fosse vendido nos solos daqui, custaria no mínimo R$ 600,00.

Pronto, parei em uma das milhares de lojas de esporte em NY, comprei um tênis iradíssimo, chamativo, verdadeira mosca varejeira com diversas tonalidades de azul, sem costuras, lindo, 80 verdinhas, e  no embalo emendei uma bermuda do Jordan, azul também, pronto, eu estava armado pra qualquer racha do mundo.

Foi então que peguei um mapa e procurei como chegar ao famoso Rucker Park, era simples, bastava pegar a linha D de metro, e descer na estação 155th st, atravessar a rua e pronto, estávamos nós no templo.

Ao chegar você já sente uma pegada diferente, eu era o único branco na rua, em frente ao Rucker tinha um condomínio daqueles de filme, e o povo me olhava daquele jeito, nem admirando nem recriminando, estavam apenas intrigados com a  presença de um cara de fora, 1,98m de altura e 115kg andando no Harlem com uma reflex pendurada no pescoço. Pela expressão eu sentia o que estavam pensando: "Branquelo maluco, logo vai achar seu lugar…". Mas minha paixão era muito maior do que qualquer tipo de receio, eu estava ali, simplesmente no Rucker Park.

Ao pisar na quadra senti o corpo todo arrepiar, parei bem abaixo do aro, pra poder sentir a altura, afinal, os lances mais históricos do baskete aconteceram aqui mesmo, sem tevê ou salário, só pelo amor da pelada. Não era muito alto, mas bem próxima da oficial. Do outro lado da quadra tinham 6 crianças de aproximadamente 12 anos jogando, 4 meninas e 2 meninos.

Me aproximei deles e comecei a tirar fotos e então um deles me convidou a jogar. Fiquei surpreso, afinal eu estava no Harlem, no Rucker, prestes a protagonizar uma cesta no solo sagrado, no aro divino. Uma das meninas tinha o estilo meio Iverson de ser, com trancinhas nos cabelos. Eu mal podia acompanhar seu bater de bola, gingado sensacional, canelas finas e jeito incomparável de jogar, mas olhe, ela era uma menina, tinha só 12 anos e cabulou o treino da escola pra poder bater uma com os amiguinhos.

Três contra três, streetball. Apesar de eu ser muito maior que eles, mais forte, eu estava alí para desvendar como se comportavam as futuras estrelas da NBA, as engrenagens mágicas deste berçário de astros. Óbvio, perdi a primeira partida, mas estava satisfeito por ter feito algumas cestas. Peguei uma bola que estava sobrando e encostei no alambrado, na lateral da quadra, comecei a girar a bola no dedo, assim como os Globetotters, que são dali mesmo. Aproximou-se de mim uma das figuras mais pitorescas do bairro, um rapaz, Posey, daqueles que existem até mesmo no Ibira, que fica arremessando bolas o dia inteiro, parecem até que dormem ali. Com fala difícil e pausada, ele queria saber como eu fazia aquilo com a bola, uau, ele estava me pedindo pra ensinar algo! Me senti o máximo! Contei de onde vinha e a minha história. Ele ficou intrigado e foi nesse momento que as verdadeiras feras começaram a chegar na quadra.

Um deles falou alto, "Hey big guy, do you wanna play?" Se ele não falou isso, foi o que ouvi, pois a gíria é bem forte naquele lugar, claro que aceitei e fui pra cima.

Muita porrada rolou, dei toco, subi na cabeça de um deles e tomei toco. Falta não se pede a não ser que role sangue, mesmo assim algumas não são consideradas. Perdi a peleja, mas foi prazeroso até demais, afinal, eu tinha feito história e muita gente naquele lugar vai lembrar do cara branco grande que veio do Brasil e ousou jogar no templo de igual pra igual com a negada. Mas essa é só mais uma das historias daquele lugar.

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Créditos: Harlem Rucker Park

Última atualização em 13/10/2012 as 20h44

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